O registro como testemunha: quando a vida digital vira prova
Atualizado: 3 de set.
Pensemos na seguinte historinha: um escravo indígena, durante a colonização das américas, recebe a tarefa de levar um cesto de figos a outra pessoa. Pelo caminho, come parte deles.
Quando chega ao destino, ele entrega uma carta ao destinatário. A carta informa quantos figos deveriam ter sido entregues. Diante da acusação, ele nega: como poderia o papel saber o que ele havia feito?
Na segunda viagem, porém, o indígena esconde a carta debaixo de uma pedra antes de novamente comer os figos. Afinal, se o papel não pudesse vê-lo, não poderia denunciá-lo.
Para ele a capacidade do papel de “saber” aquilo que havia acontecido aparecia como algo quase mágico ou divino.
Chegando novamente ao destino o conteúdo da carta o entrega e ele assume o erro, prometendo à partir de então se comportar com mais fidelidade.

É uma história medieval e curiosa, mas há nela algo que me parece muito atual.
O que damos de valor a um registro escrito ou uma prova digital? Autoridade? Credibilidade? A capacidade de testemunhar aquilo que não viu?
Hoje, talvez tenhamos, no ambiente da vida digital, apenas multiplicado os papéis. São fotografias, mensagens, vídeos, áudios, documentos, recibos, capturas de tela, bancos de dados.
Nossa vida produz registros continuamente, e frequentemente recorremos a eles para decidir o que aconteceu. Eis o momento em que a vida digital vira prova.
Mas há uma estranha inversão nessa relação. O registro, que deveria apenas conservar um acontecimento, muitas vezes passa a disputar com a própria pessoa a autoridade sobre aquilo que aconteceu.
“Eu não disse isso.”
“Eu não fiz isso.”
“Isso não foi o que aconteceu.”
E então alguém apresenta o registro.
Talvez a velha história dos figos não seja apenas uma anedota sobre a os primeiros contatos dos indígenas com a tecnologia da escrita, que ainda não compreendiam completamente.
Talvez ela seja também uma pequena história sobre o momento em que percebemos que nossas ações podem continuar existindo fora de nós — e que, uma vez registradas, podem começar a falar em nosso lugar.
Esta pequena história me aparece em livro de Umberto Eco. Ela foi contada originalmente por John Wilkins, no século XVII, e envolve uma cesta de figos, um escravo indígena e uma carta.
Fonte: John Wilkins, Mercury, or the Secret and Swift Messenger, 3ª ed., London, Nicholson, 1707, pp. 3–4, citado por Umberto Eco em Os limites da interpretação, São Paulo: Perspectiva, 2015.


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